Trance: renascimento ou extinção

Trance: renascimento ou extinção do gênero no Brasil?

Gabriela Loschi

Muito se ouve a respeito da estagnação e da possível decadência do psytrance no Brasil. As razões são várias e já foram discutidas aqui no Psyte em inúmeras matérias. Em contrapartida, o trance é uma modalidade eletrônica que já teve seu apogeu, esteve praticamente morto por aqui, mas nunca foi esquecido na Europa, e, lentamente, se ocupando de algumas brechas e agarrando oportunidades, luta para voltar a aparecer no país. E pensar que na década de 90 foi uma vertente eletrônica forte, talvez uma das mais ouvidas por aqui. Mundialmente conhecido como trance europeu, pode ser diluído em progressive, uplifting, tech e hard.

Hoje, ainda que ele tenha quase desaparecido do território nacional, algumas poucas e boas festas do gênero contribuem para que o estilo sobreviva, e são elas, através dos seus organizadores, que estão dando fôlego para que ele volte a crescer.

Mapeando o Brasil, há uma festa tradicional em Porto Alegre, a Trance Republic, organizada pelos DJs Everson K e Superti, ainda no Rio Grande do Sul tem a Euro Trance Club, no Paraná a Dance Paradise, a State of Trance de São Paulo, o Clube Nox, com sua noite de trance Unite no Recife, as boates paulistas Pacha e Anzu, que investem no estilo, a agência de DJs e produtora de eventos de Porto Alegre, Melody, o Energy Br, maior núcleo do gênero da América Latina.

Conversamos com cinco grandes DJs, nomes que são linha de frente do trance brasileiro, dos quatro cantos do país, e que lutam para trazer esse estilo e suas vertentes de volta à cena brasileira. Eles contam o que sentem do mercado nacional, o que pensam do psytrance e emitem suas opiniões sobre a evolução dos gêneros.

Fábio Stein mudou-se recentemente para Londres. Todo o seu trabalho como produtor e DJ esta centrado no mercado europeu, e no Brasil faz parte do Energy Br, além de ser atuante persistente para levantar o gênero, através da promoção de eventos abertos e fechados.

DJ Jack é dono da festa State of Trance. Toca basicamente progressive e tech-trance, acelerando em alguns momentos do set com um uplifting. Já tocou muito hard trance no passado, mas, segundo ele, o estilo não se renovou, caindo na fórmula, sendo deixado de lado por muitos produtores e até mesmo pela cena. Também é o idealizador do site Energy BR.

Pilpo Fadini é referência internacional do trance brasileiro. Apresenta o programa quinzenal Trance Feeling Sessions, para o mundo inteiro. Começou a descotear em 2002, e apesar de amar o trance, partiu para uma linha de house e dance, retornando ao seu estilo preferido sempre ao final de cada set.

Danilo Ercole toca principalmente progressive e tech trance. É DJ e produtor do Paraná, referência do trance brasileiro no exterior, com músicas assinadas nas maiores gravadoras de trance do mundo, como Armanda Music, do atual top Armin Van Burren, e Black Hole Records, do Tiesto. Já rodou o Brasil tocando nas maiores e melhores festas do gênero.

Roger Lyra comanda a cena do Rio de Janeiro. Com 20 anos de carreira, teve início no rock, já passou por diversas vertentes eletrônicas e hoje afirma veementemente que seu estilo está muito além do trance, pois não gosta de se prender em rótulos.


COMO VOCÊ VÊ A EVOLUÇÃO DO TRANCE NO BRASIL? ELE ESTÁ EM ASCENDÊNCIA POR AQUI?

FÁBIO STEIN

O trance está realmente em ascendência por aqui, apesar de ainda faltar muito para que se consolide. Mas vamos começar pelo passado, por volta de 1996: o trance era uma das vertentes mais queridas nas primeiras raves do país. Camilo Rocha, Dmitri, Jason Bralli, entre outros foram os primeiros a tocar trance no Brasil, que ainda era bem underground. Aí chegou o BOOM do trance na Europa, graças a personalidades como Ferry Corsten, que levaram o gênero ao mainstream. Nessa época o trance se tornou a vertente mais popular da música eletrônica no mundo... mas atenção: popular é uma coisa, comercial é outra. Porém, o comercial foi o caminho que o trance tomou no Brasil: aproveitando a deixa européia, gravadoras nacionais começaram a licenciar faixas de grupos de euro dance como Lasgo, Ian van Dahl, DJ Sammy, etc, vendendo-as ao mercado brasileiro, erroneamente, como TRANCE.

Acho que o futuro será a mistura, e isso vale para todas as vertentes. Essa é uma realidade na Europa: DJs estão tendo que misturar diversas vertentes no mesmo set e/ou produções, para agradar o público. Basta olhar para o sucesso do Sander van Doorn, que é um dos melhores exemplos no quesito mistura.

Muitos DJs de trance brasileiros têm a habilidade de misturar vertentes no set... pois foi assim que conseguimos promover o trance, quando ninguém sabia o que era: misturando o nosso som com algo que as pessoas já conheciam. Por isso acho que o futuro do trance, especialmente no Brasil, será o de se tornar algo eclético e versátil, para agradar a muitos.

Foi nessa época, por volta do ano 2000, que o trance morreu no Brasil. Os poucos DJs do gênero abandonaram o barco e a responsabilidade de manter o trance vivo caiu em nossas mãos, do Energy BR. Estávamos apenas começando. Ainda lembro que sofríamos para trazer 100 pessoas em nossas festas. Mas continuamos batendo nessa tecla, e em 2006 levamos a nossa festa (State Of Trance) para o super-club Anzu, onde conseguimos reunir mais de 2000 pessoas, sem precisar bookar DJs internacionais.

DJ JACK

O trance europeu vem crescendo muito no Brasil, principalmente nos últimos três anos, com enxurradas de DJs gringos vindo tocar por aqui. E isso foi um fator muito importante também para a cena local, pois o público passou a pesquisar mais e ver que por aqui também temos ótimos DJs e produtores.

PILPO FADINI

Hoje temos festas e projetos bem fortes aqui. Com este crescimento da cena nacional, têm surgido também mais festas trazendo muitos gringos pra cá. Em 2007 e 2008 esta safra gringa no Brasil está mais forte do que nunca. E isso sem contar as diversas festas de nome internacional que vêm investindo na divulgação de seu nome por aqui também, como: Gatecrasher, DJ Mag, Creamfields, Godskitchen, etc.

Sem nenhuma dúvida o trance está em ascendência no Brasil por N motivos, mas principalmente de 2006 para cá, quando as produções de nossos brazucas Fabio Stein, Danilo Ercole, Danny Oliveira, DJ Jack e Superti começaram a ter destaque e suporte nas mãos de gringos renomados em seus DJ sets ou radioshows, como: Armin van Buuren, Tiësto, Judge Jules, Paul van Dyk, Sander van Doorn, etc.

DANILO

O trance esta crescendo novamente no Brasil, devagar estamos fazendo uma cena sólida. Na verdade ele nunca morreu, só ficou fora de foco por um bom tempo, rolando festas mais underground. Acredito que o Boom do Trance já esta acontecendo, muito club tem aberto espaço pro trance nos últimos anos e muito DJ/produtor bom lá de fora tem vindo pra cá.

ROGER

Acho que no passado não houve de fato um boom, pois ainda não existia uma cena trance. Em 99 / 2000 alguns DJ´s brasileiros apostaram no estilo e incluíram faixas de trance em seus set´s, mas acho que isso não foi o suficiente para ser considerado o boom inicial do estilo no país.

No mundo, realmente o ano 2000 marcou com força e concretizou o trance como o estilo mais popular na cena internacional. Vários nomes começaram a realizar tours internacionais espalhando ainda mais o estilo, mas houve um delay. No Brasil, demorou de dois a três anos até realmente o som chegar com mais força aqui e ter efetivamente uma cena embrionária.


E O MERCADO PARA QUEM TRABALHA COM TRANCE, MELHOROU OU AINDA FALTA MUITO? COMO OS DJS E PRODUTORES ESTÃO SOBREVIVENDO?

FABIO STEIN

Infelizmente ainda falta muito, não só para quem trabalha com trance. Vejo muitos artistas/produtores de eventos/organizadores/etc (de todas as cenas), que trabalham com conceito, não terem o espaço merecido. No começo dessa década, começaram a aparecer monopólios dentro da cena nacional... Monopólios que decidiram elitizar a cena, restringindo o público e dizimando a concorrência. O resultado é que hoje o público é muito mais restrito e temos poucas empresas com o seu “lugar ao Sol” garantido.

Pouco público e pouca concorrência é uma equação que resulta em perda de qualidade. Para que bookar um bom DJ nacional e mostrar algo novo, se basta colocar o “amigo do amigo do promoter” para tocar? Precisamos acabar com o elitismo na cena, e dar a oportunidade de ouvir boa música para quem quer ouvir. Se isso acontecer, a cena ganha mais público e existirá mais espaço para os nossos profissionais trabalharem.

O trance, no Brasil, ainda está recrutando e doutrinando o seu público, que cresceu muito de 2002 pra cá. Porém ainda precisamos de mais pessoas que acompanhem e sejam fãs dos DJs nacionais, que saiam de casa para vê-los tocarem, que sejam capazes de colocá-los no mesmo patamar dos internacionais.

DJ JACK

Hoje em dia, em qualquer mercado, o DJ é muito mais do que uma pessoa que só precisa estar lá pra mixar na cabine. O DJ precisa ter conhecimento musical, produzir suas próprias faixas, divulgar e muito bem o seu trabalho, correr atrás, etc. O mercado está cheio de “DJs”, então para você se destacar, você precisar ter sempre algo há mais pra oferecer, inovando e, principalmente, passando alguma cultura, porque só trocar de música já não é mais nenhum diferencial.

DANILO

Os Clubs estão a cada dia abrindo mais espaço, a State of Trance tem edições regulares na Pacha, Anzu, a Dance Paradise com edições na Lique (um dos melhores clubs do Paraná) a Trance Republic e a Gatecrasher que são festas open Air de Trance sempre lotadas. A Cena por aqui esta se tornando cada vez mais sólida, sempre mantendo o conceito de boa musica e diversão garantida.

ROGER

Sem dúvida houve uma evolução nítida no espaço para o Trance na cena Brasileira. A iniciativa de núcleos locais criando seus próprios eventos, incentivando o intercambio de dj´s de estados diferentes e o interesse dos principais club´s do pais no estilo, foram definitivos para essa evolução, mas acho que é apenas a ponta do iceberg.. Tem muito mais a crescer no futuro.


MUITAS PESSOAS DIZEM POR AÍ QUE O PSYTRANCE DEVERIA MUDAR DE NOME POR NÃO AGREGAR OS ELEMENTOS DO VERDADEIRO TRANCE. O QUE VOCÊ ACHA DESSA AFIRMAÇÃO?

FABIO STEIN

O psy trance se chama assim porque ele tem origens no trance. O trance foi batizado com esse nome, em 1988, graças ao projeto “Dance 2 Trance”, dos alemães DJ Dag e Jam El Mar. A idéia era criar faixas eletrônicas hipnóticas que fizessem o ouvinte entrar em transe... e o legal de tudo isso, é que não existiam regras, templates ou qualquer tipo de diretriz a serem seguidos para produzir trance.

É claro que, com o tempo, o trance foi evoluindo, se adaptando em cenas diferentes. Enquanto na Europa as pessoas escutavam o som de Age Of Love, Humate, Jam & Spoon, Marmion, Oliver Lieb, etc, na Índia, em Goa, escutavam um som maluco, tocado por hippies através de fitas de rolo, mas que também tinha o mesmo propósito do trance da Europa: fazer as pessoas entrarem em transe. Logicamente não demorou muito para ele ser batizado de goa trance.

Esses dois gêneros cresceram, evoluíram e se multiplicaram em centenas de sub-vertentes. Em 20 anos, é normal que eles tenham se afastado um pouco um do outro, né. O goa trance seguiu o seu caminho e hoje existe psy trance, full on, progressive (psy), morning, dark, etc.

Acho que muitos psyzeros vão concordar comigo quando eu digo que o psy de hoje tem muito pouco a ver com o goa de 20 anos atrás. Enquanto isso, o trance (da Europa) também seguiu o seu caminho, e hoje temos uplifting, tech trance, hard trance, hard dance, progressive (trance), etc. Aqui também posso afirmar que o trance de hoje tem muito pouco a ver com o trance daquela época.

Enfim, aí está o porquê de dois gêneros como o psytrance e o trance europeu, terem nomes tão parecidos, mesmo não tendo nada a ver um com o outro. Mesma origem, caminhos diferentes.

DJ JACK

O psy no que se refere a “full on” eu concordo plenamente, porque não tem nada a ver há muito tempo. O que foi muito relacionado ao trance mesmo era o goa, que não se produz tanto como antigamente, mas que ainda tem algumas coisas saindo.

PILPO FADINI

O que dizem por aí é que o psy (repare que eu escrevo psy e não psytrance) é uma evolução do goa trance. Existem diversas histórias que dizem que o goa existe desde as décadas de 70/80 e que aos poucos foi-se acrescentando elementos mais psicodélicos nas músicas até naturalmente mudar-se o nome para psy! Eu sinceramente não ouço psy, é um estilo que não me agrada.

DANILO

O psy é a evolução do goa trance, que na minha opinião ainda era uma vertente do trance, mas ele evoluiu muito e hoje em dia, na minha opinião, não tem mais nada de trance na sua estrutura.


Por: psyte


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